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NA ILHA DE FALESÁ, na Folha de S. Paulo
NA ILHA DE FALESÁ, na Folha de S. Paulo

Robert Louis Stevenson chegou ao limiar da desolação moderna

por Sergio Rodrigues

O escocês Robert Louis Stevenson escreveu "Na ilha de Falesá" pouco antes de morrer, aos 44 anos. Já era o imensamente bem-sucedido autor de "A Ilha do Tesouro" e "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde", mas andava em busca de novos caminhos.

Curta e tensa, a história das aventuras do comerciante inglês Wiltshire na paradisíaca (e imaginária) ilha de Falesá, no Pacífico Sul, foi publicada em 1892 numa revista londrina e, no ano seguinte, ao lado de outras narrativas curtas, no livro "Island Nights' Entertainments".

Seus contemporâneos viram ali uma prova de sua decadência artística.

Um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos, Stevenson tinha se consagrado com tramas românticas cheias de colorido e peripécias.

Elas garantem até hoje sua posição como um dos escritores mais lidos da história e o levam a ser menosprezado por muitos estudiosos de literatura como um autor infantojuvenil.

No entanto, tendo se mudado recentemente para uma ilha de Samoa em busca de clima favorável à sua saúde, que desde a infância era comprometida por problemas respiratórios, Stevenson chegava ao fim da vida com inquietudes estéticas que desmentem essa visão rasteira de sua obra.

"É a primeira história realista dos mares do Sul", escreveu a um amigo sobre a novela. "Quero dizer, com personagens e detalhes da vida verdadeiros. Todos os outros que tentaram, até onde sei, se deixaram levar pelo romantismo e acabaram com um épico edulcorado e falso, estragando todo o efeito."

Cansado de ser romântico, Stevenson morreu um ano depois de seu livro "realista" ser mal recebido por críticos e leitores. Essa má vontade dos contemporâneos desenha um quadro clássico de arte à frente de seu tempo, como, mais de um século depois, a prazerosa leitura de "Na Ilha de Falesá" deixa claro.

A história é simples. Wiltshire, inglês bronco e cheio de preconceitos contra os nativos, chega a Falesá com a missão de administrar um entreposto comercial. Já ao desembarcar, é enganado de forma torpe por seu concorrente Case, numa manobra que envolve o arranjo de seu casamento com Uma, nativa bela mas proscrita.

Tratado como "leproso" e incapaz de encontrar um único cliente na supersticiosa população local, por causa de Uma, o monoglota e arrogante Wiltshire demora a entender o que se passa. A compreensão do problema e a escalada violenta do conflito com Case desenham em poucas páginas magistrais uma jornada que é ao mesmo tempo de ação, como num thriller, e de autoconhecimento, como num romance psicológico.

Seria exagero dizer que "Na Ilha de Falesá" é uma crítica violenta ao imperialismo britânico. No entanto, fica evidente nas reflexões de Wiltshire sobre os nativos –e sobre a miscigenação com eles– que as preocupações realistas de Stevenson o haviam levado ao limiar da desolação moderna que Joseph Conrad exploraria poucos anos depois.

 

 

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