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O HORLÁ no caderno Aliás do Estadão
O HORLÁ no caderno Aliás do Estadão

Principal conto de Guy de Maupassant, 'O Horlá' ganha nova edição

Por José Castello

Caderno Aliás 10 Junho 2017

História narra eventos sobrenaturais desencadeados por uma entidade invisível

A nova edição brasileira reúne três versões da mesma história. Abre com a versão definitiva, de 1887, mas nos traz também a primeira versão, Carta de um Louco, publicada por Maupassant em 1885 na revista Blas, seguida da segunda versão, já batizada como O Horlá, de 1886. A reunião das três versões tem, não apenas, importância para os estudiosos da literatura; ela apresenta ao leitor comum o modo como outros textos (“estranhos”) se escondem no interior de qualquer ficção.

“Parece que o ar, o próprio ar que não vemos, está repleto de forças incompreensíveis”, diz o narrador da versão definitiva, escrita em forma de diário íntimo. Nossos sentidos são frágeis. Nossa percepção do mundo está, em consequência, limitada por essas fragilidades. O que conhecemos é sempre parcial: uma parte se furta e se esquiva, o que não significa dizer que ela deixe de atuar e de influenciar nossas vidas. O diário relata como um homem, aos poucos, só a partir de pequenos sinais quase desprezíveis, começa a se dar conta de que convive com um ser estranho. 

Durante a noite, uma garrafa de água colocada à sua cabeceira se esvazia sozinha. O vaso de leite se evapora misteriosamente também. Copos se quebram dentro dos armários da sala. O talo de uma rosa, bem à sua frente, se dobra, como que empurrado por uma mão invisível. Atônito, o personagem de Maupassant se agarra, primeiro, à ação do sobrenatural. Mas ele logo conclui que não há mistério algum – não há paranoia, como hoje tendem a argumentar os comentaristas do presente. “Não entendo, porque a causa me escapa”, mas, mesmo desconhecida, ela existe, não deixa de agir e de produzir consequências.

Aos poucos, o narrador de Maupassant descarta a hipótese mais fácil da loucura. O Estranho é, também, o Invisível que, embora não se deixe ver, continua a agir e, portanto, existe sim. Recorda, então, do que lhe disse um monge a quem visitou no monte Saint-Michel: “E alguém chega a perceber a centésima milésima parte de tudo o que existe?” O religioso lembrou, então, o exemplo do vento, que tomba edifícios, arranca árvores, destrói falésias e atira grandes navios contra os recifes. “O senhor já o viu, ou consegue vê-lo? Ainda assim ele existe”. O Estranho que o Horlá encarna não é o inexistente que nos assombra, mas o desconhecido que delimita a dimensão de nossa ignorância. Não é uma questão de nele “acreditar” – ele não precisa de nossas convicções para existir. As convicções, elas também, apenas o encobrem. O Horlá criado por Maupassant teria chegado à Normandia, onde a história se ambienta, a bordo de um veleiro brasileiro que subia o rio Sena. O narrador avistou o barco dos jardins de sua propriedade, nas cercanias de Rouen. 

Não se trata de um louco. Ao contrário, é a negação do Estranho e de sua presença esquiva que o perturba. Na versão de 1886, escrita na forma de um relato médico, depois de relatar o caso de seu paciente, o doutor Marrande, ilustre alienista, conclui: “Não sei se este homem está louco, ou se nós dois enlouquecemos... ou se... se nosso sucessor de fato chegou.” A presença do Horlá vem romper a cegueira humana. Vem desmascará-la. 

Aqui se afirma a atualidade do relato de Maupassant. O Estranho não é aquilo que brilha e nos assusta nos noticiários da TV, ou que incendeia nossas parcas certezas. A leitura de O Horlá nos ensina que ele se esconde nas pequenas coisas, parece improvável e até desprezível, mas é justamente assim, camuflado e esquivo, que age sobre nós.

 

 

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