Seu carrinho de compras está vazio!
Notícias
VALENTIA, no O ESTADO DE S. PAULO por Ricardo Corona
VALENTIA, no O ESTADO DE S. PAULO por Ricardo Corona

 

Em Valentia, antropóloga recria em ficção a revolta da Cabanagem no Amazonas

Por Ricardo Corona

 

Sempre que leio ficção que flerta com fatos históricos, antes de me deixar levar por essa relação de fundo, procuro saber das soluções encontradas pelo autor para acessar os acontecimentos e de que maneira os fez repercutir com potência na sua literatura. Quando a ficção produz diferença, dando conta dessa relação, convenço-me de que ela é que melhor compartilha o conhecimento histórico. Se a história está sempre em jogo, por que não apresentá-la com o incremento da imaginação? "Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi'. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo", escreveu Walter Benjamin no breve e agudo ensaio sobre o conceito da História (Magia e Técnica, Arte e Política, 1994).

Valentia, de Deborah Kietzmann Goldemberg, apresenta essa medida criativa entre imaginação e memória. A escritora e antropóloga atuante em projetos de desenvolvimento sustentável (nas regiões do Norte e Nordeste) criou um texto ficcional que se relaciona intensamente com a Guerra da Cabanagem. Conflito que envolveu o governo imperial e as populações indígenas e ribeirinhas do Amazonas, a Cabanagem é considerada a maior revolução do Brasil, ao passo que é também a mais desconhecida. Valentia não só nos apresenta esse outro Brasil como colabora com os repertórios das literaturas memorialista e antropológica.

A trama de Valentia se desenvolve em dois tempos que se alternam sucessivamente, pontuados por sugestivas ilustrações (de Aline Binns) e que apresentam duas medidas decisivas de acesso à memória: imaginação e lembrança. As duas narrativas e as duas maneiras de acesso à memória fazem de Valentia um romance estilisticamente bem-sucedido na relação literatura e história.

Na ficção mais revelada, o narrador Samaúma, filho de pai índio com mãe francesa, criado entre os seminaristas batas, mas lutando até o fim contra essa moral cristã, conta a sua versão da Cabanagem na posição de quem foi protagonista e principal articulador. Refiro-me à narrativa que abre o livro e que se passa no período de 1835 a 1840, contada quando Samaúma está semimorto, estirado na praia Luzéa, após vários confrontos com o governo imperial - após ter desistido e retornado à guerra porque somente assim poderia retomar a contemporaneidade do seu tempo. É desse lugar fictício - à beira da morte -, lugar da memória envolvida com a experiência ulterior da guerra, reminiscência de um morto-vivo - "fui e sou um ser humano completo, um perfeito morto-vivo", diz ele -, que a autora arma parte da trama ficcional de Valentia.

Além de personagens bem delineados, não no sentido meramente biográfico, mas no sentido de trazerem o clima de heroísmo desesperado em tempos desmedidos. Cito uma, que mais me encantou: Ana Angélica, transformada em Valentina por causa da sua coragem que ultrapassa as margens do feminino e do masculino. Samaúma aprende com ela um dos sentidos da palavra "valentia", que é perseguido por ele com a mesma intensidade que tenta se livrar do seu moralismo cristão. O leitor, por sua vez, pode fazer o nome da personagem Valentina ressoar no nome do romance, uma camada a mais de sentido para esse substantivo feminino "Valentia".

A outra parte ocorre em 2010, em que se abre o espaço para uma pujante narrativa paralela que se relaciona mais de perto com o dado antropológico, que é a "fala" ainda viva da Guerra, fala atual, que não esconde os lapsos e as invenções da população, memória que podemos dizer reminiscente, com potência ficcional, trazida por meio de depoimentos, entrevistas, conversas.

No decorrer da trama, as duas narrativas funcionam como margens moventes que se aproximam e isso contribuiu, inclusive, para que essa separação sem entrecruzamento narrativo direto não ficasse arbitrária. Ao contrário, somada a personagens fortes, étnicos e transpassados pelo tempo de guerra em que se engajam sem comedimentos, dão ao romance a sua energia narrativa. Os relatos colhidos e apresentados paralelamente à ficção beiram a ficção. Por sua vez, a ficção contada paralelamente aos relatos beira a história. Mesmo acontecendo em tempos separados, tendo em comum a reminiscência da guerra, o que colabora para que essa seja tensionada linha a linha, em vários aspectos: éticos e morais, as questões de poder e loucura, os Brasis (colonial e contemporâneo)... Ambas as formas de narrar não camuflam o esfumaçamento, a lembrança quase apagada, vaga, que advém, ou melhor, põe-se em jogo quando da arte de narrar os fatos, o que permite, em termos de literatu.ra, a abertura ficcional.

Grua Livros © 2017