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AS HORTENSIAS  - No O ESTADO DE S. PAULO
AS HORTENSIAS - No O ESTADO DE S. PAULO

O absurdo como incremento do real

Em As Hortensias, o ficcionista uruguaio Felisberto Hernández explora o inefável, o estado contínuo de poesia

Por RICARDO CORONA

 

A editora Grua acaba de disponibilizar ao leitor brasileiro o volume As Hortensias, do uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964). A edição é bilíngue, com tradução feita a quatro mãos por Pablo Cardellino Soto e Walter Carlos Costa e seu mérito está em conseguir trazer para o português o "idioleto" felisbertiano. Além da nouvelle que intitula a seleção, o volume apresenta ainda três narrativas breves: Úrsula, A Mulher Parecida a Mim e A Árvore de Mamãe. À exceção de A Mulher Parecida a Mim, todas estavam fora de circulação havia décadas, por "motivos inexplicáveis", segundo o ensaísta e editor argentino Edgardo Russo, em nota à edição argentina (El Cuenco de Plata, 2010).

Felisberto é um dos escritores mais originais da literatura moderna - e não somente da castelhana. Trata-se de um autor que deflagrou processos criativos em muitos escritores da peculiar narrativa fantástica de língua espanhola e a singularidade de Felisberto destaca-o de tudo e de todos, até mesmo da literatura que colaborou organicamente. Pode-se afirmar que suas histórias estão para a literatura fantástica como a prosa poética de Lautréamont (outro uruguaio) está para o surrealismo: "É um tipo de fantástico único, expresso em uma língua inconfundível", atestam os tradutores desta edição brasileira. Uma diferença partilhada por admiradores como Italo Calvino: "Felisberto Hernández é um escritor que não se parece com ninguém: com nenhum europeu e com nenhum latino-americano; é um 'atípico'", acreditava o autor de Palomar.

Particularmente, para lê-lo, gosto de dividir a sua produção em duas etapas. A primeira fase é a do Felisberto que publicou seus primeiros livros: Fulano de Tal (1925), Libro Sin Tapas (1929), La Cara de Ana (1930) e La Envenenada (1931). Esses livros, impressos em gráficas de amigos jornalistas, verdadeiros mimos artesanais, apresentavam-se com uma escrita não fixada apenas na palavra, mas em tudo o que permitisse ao próprio objeto livro "dizer" algo, criando estranhos deslocamentos, como o Prólogo de Um Livro Que Nunca Pude Começar, anunciado no fim de Fulano de Tal e o aviso ao leitor em Libro Sin Tapas: "Este livro é sem capas porque é aberto e livre: pode-se escrever antes e depois dele." Ou ainda: "Interrompa a leitura deste livro o maior número de vezes possível: é quase certo que o que você pense nestes intervalos seja o melhor deste livro" (La Envenenada). Publicações imprescindíveis do seu contexto de escritor aparentemente desligado da literatura feita no mundo à época, o que talvez tenha lhe permitido apurar a visão que dissocia o objeto do todo, sem vinculação com a consciência do sujeito que o enquadra, invertendo uma lógica que é marca neste autor, ou seja, conforme frisa Jorge Monteleone, da Universidade de Buenos Aires: "Não é a realidade que é absurda: o absurdo é um incremento do real".

Na segunda fase não há rupturas drásticas ou constatação de traços de "maturidade", apenas o objeto livro, sua estrutura formal, "prólogo" e "dedicatória" são menos utilizados como recursos de deslocamentos. No entanto, as misteriosas relações ilógicas que o autor sempre desenvolveu estão neste período mais concentradas nas possibilidades restritas à escrita, à palavra. Desta fase são, entre outras, as narrativas de As Hortensias, que compreendem os anos de 1940 a 1964. Em As Hortensias, o narrador Horácio é um colecionador de "bonecas um pouco mais altas que as mulheres normais", cuja obsessão o faz construir três cômodos de vidro, sendo um deles para guardar as tais bonecas, que ficam ali à espera de encenações, realizadas nos outros dois cômodos de vidro com cenários e roupas feitas para as histórias que inventa especialmente para elas. A partir daí, o leitor acompanha uma trama em que as bonecas são um pouco mais humanas do que meros objetos. Em A Mulher Parecida a Mim, um cavalo é o incremento da realidade, com o protagonista narrando suas lembranças de ter sido um. E o leitor, assim, ao ler o volume, perceberá que a revelação não passa pela ideia de que as histórias e personagens de Felisberto foram criadas para surpreender, mas talvez para permanecerem suspensas no inefável, nos acontecimentos em estado contínuo de poesia.

É inevitável dizer antes de encerrar este artigo que a importância da publicação de As Hortensias está no fato de amenizar a falta que temos em relação à circulação de alguns ficcionistas que deflagraram a modernidade na literatura escrita em língua espanhola. Felisberto Hernández é, sem dúvida, com o argentino Macedonio Fernández (1874-1952), seu "irmão literário", um autor com o qual seguimos em dívida. Do primeiro temos ainda por aqui a seleção O Cavalo Perdido e Outras Histórias, organizada e traduzida por Davi Arrigucci Jr. (Cosac Naify, 2006), e do segundo, a coletânea Tudo e Nada (Imago, 1998), com organização e tradução a cargo de Sueli Cassal, e o romance Museu da Novela da Eterna (Cosac Naify, 2007), traduzido por Gênese Andrade. E é tudo. Convenhamos: muito pouco, dada a importância de Hernández, cujas narrativas anteciparam a prosa mais ousada de autores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, por exemplo - e, estendidamente, aparecem no pulso de uma miríade de nomes, cujas ficções estão acima de qualquer suspeita e ocupando lugar de destaque. Menciono três: Mario Bellatin, Alejandro Zambra e Cesar Aira. Pouco a pouco, essa realidade vai se revertendo - e esse é mais um mérito deste volume da Grua.

 

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