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Super-homem, não-homem, Carol e os Invisíveis no Rascunho
Super-homem, não-homem, Carol e os Invisíveis no Rascunho

Apoteose do cotidiano

Novo livro de Carlos Eduardo de Magalhães problematiza o Brasil a partir de histórias que se cruzam

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Entre os aspectos interessantíssimos de Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis, o mais recente romance de Carlos Eduardo de Magalhães, há o fato de não ter um protagonista, e sim vários personagens centrais. Carol é casada com Marcos, arquiteto que se considera um não-homem. Ela é amiga de um outro Marcos, ator, que tem a impressão de ser um super-homem. Eles moram no mesmo prédio em São Paulo. Os invisíveis são cinco adolescentes que vivem em favelas do Rio de Janeiro e, além de serem alunos exemplares, tentam vencer um inimigo virtual, o CangaçoMan, em um jogo de luta na internet. Marcos, o ator, é, no mundo virtual, o CangaçoMan — e, durante a maior parte da narrativa, o superpoder que ele supõe ter se deve à performance de seu avatar.

Só essa sinopse já aponta outra característica deste que é o décimo livro de Magalhães: o diálogo do autor com o tempo presente. Ler Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis é sentir nuances do século 21 no Brasil, em especial, a atmosfera das grandes cidades. E o escritor paulistano conseguiu radiografar o zeitgeist cruzando dramas de personagens de classes sociais distintas que vivem em cidades diferentes, apresentando o que eles fazem, pensam e sentem no mesmo tempo, apesar de eles não perceberem a presença uns dos outros, uma vez que todos — como nós — estão muito focados em si mesmos.

Há trechos na narrativa que mostram as ações simultâneas, um deles, por exemplo, é a abertura do capítulo 5, na página 63:

Os dois Marcos acordam em cidades diferentes. Quando apanham sonolentos seus celulares iguais ao lado de camas muito parecidas a imagem 07:11 surge assim que apertam os botões que os destravam. Na mesma hora e minuto, Carol entrega seus meninos no portão da escola. Como de costume, quando os leva, ela tem de lhes cobrar o beijo de tchau, ansiosos que estão para se juntarem aos colegas. Também às 7h11, o último d’Os Invisíveis entra na classe. Tem um lugar vazio perto dos outros quatro, no fundo da sala, mas ele prefere sentar na primeira fileira, ao lado daquela menina calada de jeito triste.

Os personagens de Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis são representações de cidadãos que enfrentam rotinas, conscientes de suas limitações e fraquezas, com exceção de Marcos, o ator, o único que tem a sensação de ser diferente dos outros:

Ele derrubou com a força da mente o suporte da escova de dentes, fez o trânsito andar e o elevador chegar no exato momento em que a porta do seu apartamento abriu. E durante o dia lembrou-se de inúmeras pequenas coincidências, pequenos acontecimentos que, na verdade, ele tinha certeza, haviam sido causados pela sua vontade.

Marcos, o ator, é um contraponto aos demais personagens — e, mesmo com a excentricidade, espelha alguns sujeitos da realidade que se sentem superpoderosos, mesmo quando não têm poderes.

Já os outros personagens do livro, de fato, vivem dentro das possibilidades e dos limites do cotidiano — e nisso está outro ponto alto de Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis: a recriação do que há de aparentemente banal na vida por meio da ficção. O romance de Magalhães dialoga com aquela ideia, segundo a qual, o extraordinário seria, e talvez seja mesmo, a aventura do dia a dia no dia a dia. Sem superpoderes, nem surpresas ou alegria em excesso. Os invisíveis são apresentados seguindo esse ponto de vista:

São cinco, mas poderiam ser apenas um. São da mesma cor, falam as mesmas gírias, têm desejo e amor pelas mesmas meninas e se excitam nos mesmos sites de pornografia, jogam os mesmos videogames, usam as mesmas roupas e os mesmos bonés, torcem para o mesmo time, têm os mesmos pais, os mesmos avós, a mesma hereditariedade, a mesma descrição nas estatísticas dos institutos de pesquisa e nas histórias que os homens contam e inventam.

Mas quem mais se sente invisível, mais até do que os adolescentes cariocas, é o Marcos arquiteto. A crise que ele enfrenta é outro destaque de Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis. Marcos se tornou arquiteto para também se realizar como artista, mas a profissão apresentou tantos nãos que, durante a narrativa, ele está quase desistindo — de tudo:

Abre o arquivo do projeto em que está trabalhando. Não há nada ali que seja dele. Não há nada ali que seja. Cada traço, cada medida, cada ângulo é uma somatória de nãos que tem de funcionar de maneira ótima, uma não-beleza de bom custo-benefício, não uma obra de arte, e A arquitetura que importa é uma obra de arte.

Então, ele provoca uma alteração em seu cotidiano e, como tudo se relaciona no romance de Magalhães, também haverá transformação, e surpresa, no percurso dos outros personagens. A turbulência na rotina vai fazer com que Marcos arquiteto, que se autodenomina não-homem, elabore perguntas para, em seguida, ele mesmo responder:

1 — O que é uma não-casa?
É uma casa sem identidade.

2 — O que é um não-aeroporto?
É um aeroporto sem identidade.

3 — O que é um não-dia?
É um dia sem identidade.

4 — O que define identidade?
Não sei, mas reconheço quando enxergo.

5 — O que é arte?
É a expressão exterior do mundo interior de um homem. A materialização desse mundo, e a relação sensorial que se estabelece com o material, é que define a qualidade da arte e do espectador. Se todos os homens perdem a sua identidade, não poderá haver arte. A matéria-prima da arte é a verdade. Se não há verdade, não poderá haver arte.

6 — O que é a verdade?
Às vezes é aquilo que se acredita, às vezes é aquilo que se sente, às vezes é aquilo que de fato é.

Ao invés de estar no escritório, Marcos arquiteto foi até o Parque do Ibirapuera, onde deitou na grama e dormiu. Ele também retornou a uma lanchonete que frequentava quando era criança, e não a reconheceu, da mesma maneira que tem convicção de não se reconhecer. Em dúvida, na crise pessoal, profissional, existencial enfim, segue perguntando e respondendo:

7 — O que é um não-arquiteto?
É um técnico, uma peça na máquina em linha de produção.

8 — O que é a técnica?
São os acertos das experiências passadas dos seres humanos.

9 — O que é a experiência?
É um viver intenso que permanece.

 […]

11 — O que é um não-homem?
É um técnico em ser homem, é um ser humano sem alma.

12 — O que é Marcos?

Sem ter a resposta, Marcos se movimenta. Dentro de um vagão de metrô, diante de uma nova página em branco, vai encontrar um caminho para o impasse:

1 — O que é um arquiteto?
É alguém que diz não ao cliente.

2 — O que é um homem?
É alguém que diz não.

A partir da epifania, “arquiteto, e homem, é alguém que diz não”, o futuro de Marcos, o arquiteto, poderá se transformar, mas, antes disso, há o desfecho deSuper-homem, não-homem, Carol e os invisíveis, que não será comentado nesta resenha. Faltou mencionar o que acontece com os invisíveis, que vão enfrentar adversidades nas ruas do Rio de Janeiro, e também poderia haver alguma referência ao drama de Carol, que desistiu de ser historiadora para se tornar psicóloga e durante a narração sofre a perda da mãe. Esta resenha também omitiu informações sobre Marcos ator, mas, a partir do que foi dito a respeito de Marcos arquiteto, incluindo os trechos citados, vale ressaltar que esta obra tem muita força por problematizar, com originalidade, o Brasil contemporâneo a partir de dramas supostamente banais, aparentemente irrelevantes, mas que, no fundo, podem explicar e jogar luzes sobre o que é, e se tornou, o país no século 21 — e, por isso mesmo, Super-homem, não-homem, Carol e os invisíveis merece leitura, releitura, discussão e visibilidade.

 

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