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ENTARDECER (trecho)
ENTARDECER (trecho)

Meu pai, nascido em 03 de julho de 1906, era o terceiro filho de uma prole de oito e, ainda menino, foi morar por algum tempo com seu tio avó materno Zezé Afonso Guerra, fazendeiro "vizinho dos Pena" como sempre se referia à fazenda do ex-presidente da República Afonso Pena localizada em Cocais. E nessa privilegiada condição em relação aos seus irmãos, teve contato com pessoas de melhor nível cultural. Menino inteligente, era estimulado pelo tio que o exibia aos vizinhos, instando-o a declamar poesias nas reuniões, comuns em uma época em que a televisão sequer era imaginada como algo possível e o rádio ainda não chegara a paragens interioranas. Era o começo do século XX, que mantinha a continuação dos costumes de séculos anteriores, em que as diversões domésticas consistiam em reuniões de leitura, de declamações, ou de saraus com alguém a tocar no piano alguma peça, ou em jogos de sala iluminados por velas e lampiões.

Esse período ficou gravado na memória de meu pai como um dos momentos felizes da infância, rica em aventuras típicas do mundo rural de então, em que atravessar um caudaloso rio era sempre um desafio a enfrentar com o destemor da falta de consciência do perigo. Os rios Doce, das Velhas e o das Mortes ᾢ denominação a indicar travessias trágicas - foram por ele transpostos a nado em diversas ocasiões, apesar da profundeza de suas águas, de sua largura e da correnteza, que sempre punha em risco a ousadia dos que se dispunham a enfrentar-lhes o curso caudaloso. Foi ainda nesse tempo que adicionou ao seu nome de batismo o Guerra do ramo materno. Contava que "tio Zezé Afonso", como o chamava, ao vê-lo assinar o nome sem aquela referência, indignou-se com a ausência da menção ao sobrenome materno, que era o de sua famíla. "Você não assina o nome de seu padrinho?", advertiu-o, e foi o bastante para que passasse a se assinar Oscar Augusto de Magalhães Guerra, depois abreviado para Oscar Magalhães Guerra, como ficou conhecido pelo resto da vida. Era chamado pelos amigos simplesmente de "Guerra". Foi uma homenagem simples e comovente a quem sentia grande afeição, verdadeira e pura, como é a da infância e que perdura incrustado na memória da vida adulta e permanece na velhice.
 
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