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A Cada 15
O CACHORRO E OS CÃES
O CACHORRO E OS CÃES
De tarde, sentados no tronco de uma castanheira caída, três homens conversavam na clareira brilhante e silenciosa. Deitado na rede, no canto mais sombrio da palhoça, Severino contemplava-os em silêncio. 
Depois, a velhinha enquadrou-se na porta, um vulto ligeiro e escuro como um rato, que logo sumiu para outra parte da cabana. Ela revolveu o borralho e retirou a banana com casca de cima das brasas. Em seguida, soprou as cinzas, pôs gravetos e lenha e despejou álcool. A madeira crepitou, o fogo explodiu, e Severino pensou que fosse incendiar as palhas. 
O leite de pinhão-bravo fechara-lhe a ferida, e, mesmo inchada, a perna esquerda já lhe permitia algum movimento. "Sorte sua não ter acertado um osso ou o joelho..." ralhava a mulher, enquanto trocava a atadura. Uma rajada de metralhadora, girada em meia-lua - o cortar sibilante das balas que desapareceriam na mata -, deixando um homem morto e cinco em fuga.
Quando a velha saiu, Severino voltou a olhar para fora, mas não viu mais os três homens. Atrás do acampamento deserto, a floresta escurecia. Severino fechou os olhos e tentou adormecer. Depois de algum tempo, a velhinha reapareceu. Ela fazia tudo com desvelo, causando nele a impressão de sempre deixar desaparecidos seus passos órfãos e miúdos. Entregou a Severino o mastruço na garrafa e as ataduras.
Quando a sombra oblíqua das árvores já avançava pela clareira, apareceu um homem trazendo comida e água, que deixou perto da rede. Era alto, barbudo, de pele trigueira. Severino vira-o algumas vezes, comprando nos armazéns de secos e molhados. 
- Os últimos partiram hoje. Vamos voltar para a cidade e ficar quietos por uns tempos. Amanhã cedo, alguns companheiros vêm buscar você, e você vai para outro acampamento. Levo sua cartucheira e estou deixando minha carabina e uma caixa de munição. 
- Tudo bem -, disse Severino, acomodando-se na rede.
- Camuflamos trabucos em toda a área de acesso à clareira. Protegemos as espoletas com cera de abelha, para não molharem ao sereno. Quem tocar as linhas de cobre vai levar tiro. Se algum crefo disparar, saia daqui e desça até o rio. Lá, você encontra uma canoa com motor, se precisar fugir.
- E Nuta?
- Contam que está preso, mas não sabemos se é verdade... Agora estão procurando por nós. Acham que você lhes preparou uma cilada. Somente ontem à tarde enviaram um pelotão para buscar o cadáver do policial. Hoje, mandamos as mulheres e as crianças para a cidade. __ Estendeu a mão para Severino. - Até amanhã, companheiro. Procure se cuidar.
Quando o homem saiu, Severino ficou ouvindo o ruído cuidadoso das botinas que se afastavam, como o pisado macio de um animal nas folhas. Longe, alguém assobiou, e um longo assobio respondeu das imediações da palhoça. Em seguida, mais dois ou três assobios repetiram-se, como numa ressonância de espelhos, e então silenciaram.
A noite subiu pelo retângulo da porta, até escurecê-la, suavizando as árvores e as barracas ainda cobertas de lona plástica. Nos dias anteriores, Severino observara uma mulher muito jovem amamentar uma criança. A cabana dele era coberta com palmas de açaí, e estava enfiada na floresta, sob árvores enormes, perto da clareira.
Aproveitou a última claridade para atar a rede num local seguro. O homem tinha-lhe deixado uma lanterna, fumo, palha de cigarro e óleo de cozinha contra os mosquitos. Severino esticou-se na rede, ouvindo os últimos piados dos jaós. Depois, encostou a espingarda e a lanterna ao lado da perna doente, e ficou ouvindo o ruído da própria respiração, tentando adormecer. 
A culpa de tudo era de Nuta, de sua mania de falar às gargalhadas, abrindo o bigode feito asas e encolhendo as perninhas sobre a cadeira. Contava qualquer fato como se fosse para todo mundo ouvir. Na tarde de terça-feira, ele andara bebendo na zona e tinha revelado que sabia onde os posseiros estavam. Sabia, disse, porque Severino tinha dito. 
 
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