Seu carrinho de compras está vazio!
A Cada 15
A PONTA, trecho do conto "A GRANDE RÃ-TOURO AMERICANA"
A PONTA, trecho do conto "A GRANDE RÃ-TOURO AMERICANA"

Quando estávamos perto o suficiente, Regimbal girou como um arremessador de disco, e lançou o galho nos arbustos. Esperamos. De repente as luzes nos arbustos ficaram malucas. Criaram vida, como raios afiados que se agitavam, procurando na escuridão; e então, como se fossem fios ligados a nós, todas as luzes nos miraram de todos os ângulos. Elas nos cegaram. Nos viramos e corremos. Atrás de mim, eu podia ver os homens com lanternas tentando nos alcançar. Passei por Regimbal, que escorregou e caiu na lama. Eu decidira que ia simplesmente fugir, e não voltar para Hopper, Riles e todos os outros garotos que nos esperavam, agachados. Fugiria para fora do parque, para as ruas, para nosso bairro. Me imaginei correndo em frente à nossa casa, com todos os veados me seguindo. Eu dispararia pela Décima-Quarta, e depois para a Prospect. Entraria na casa dos Thompson, e me esconderia atrás do monte de adubo que eles tinham lá. Se os veados ainda estivessem por lá, eu pularia por cima da cerca, entraria em nosso beco, pularia o portão, e subiria feito louco pela árvore.

Às margens do parque, eu me virei. Nem um só veado tinha me seguido. Do outro lado do terreno, no escuro, havia um fuzuê, com as luzes se contorcendo para todos os lados, subindo para o céu e apontando para o chão a esmo, girando loucamente. Regimbal tinha caído e as bichas o tinham pegado. Ele estava berrando. Hopper e a turma toda dispararam pelo campo feito uma horda de bêbados, e logo tinham se confundido com os veados. Pelo movimento de martelo de um dos fachos de luz, dava pra ver que alguém estava levando pancada na cabeça. Outras luzes jaziam no chão. Corri de volta e saltei por cima daquele embolado de gente, daquele nó de pernas e braços que grunhia, ria, chorava e guinchava. Puxei o cabelo de um — que acabou sendo um dos nossos caras, daqueles brutamontes de Renton. Regimbal estava choramingando lá embaixo, na base da pilha de gente: "Não consigo respirar", ele gritava. "Porra, não consigo respirar!" Esmurrei alguém, não sei quem, e então outra pessoa me esmurrou na orelha, e depois fui chutado várias vezes no traseiro e nas costelas. Quando alcancei Regimbal, puxei-o para cima, e ele saiu correndo dali. De repente, aquela história toda parecia não ter o menor objetivo. Era como um jogo sem bola. Aí todo mundo saiu correndo. Todo mundo: aqueles caras, as bichas, eu — todos nós corremos em direções diferentes.

BAIXAR PDF
Grua Livros © 2017