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A Cada 15
OS INOMINÁVEIS - trecho
OS INOMINÁVEIS - trecho

lt;p> No dia em que fiz oito anos de idade, meu pai me levou com ele à tipografia onde trabalhava como revisor, Claudia. Eu nunca havia refletido sobre como ele passava seu dia. Ele saía de casa de manhã antes de mim e, quando voltava, no começo da noite, primeiro sumia no jardim onde regava os canteiros, arrancava as ervas-daninhas ou revolvia a terra. Eu não pensava nas horas que havia entre esses dois momentos. Ele simplesmente estava fora, como os outros pais.

 

Em 2 de agosto de 1964, papai me mostrou seu mundo para além de nossa casa e família. Aquele verão estava quentíssimo e monótono. Eu tinha a sensação de que as férias escolares se resumiam a um único dia, interminável. O calor se instalava como uma redoma sobre a cidade, sob a qual tudo parava e adormecia. Quase todas as crianças haviam saído em viagem de férias, os parques estavam abandonados, cozinhando ao sol.
Dos presentes que ganhei em meu aniversário de oito anos eu não me lembro, Claudia. Papai ia saindo de casa à mesma hora de sempre. Já estava à porta quando se virou e bateu a mão espalmada na testa, num gesto teatral. Ele era um mau ator, pois tinha a língua solta. "Eu quase ia me esquecendo de que hoje você vem comigo", disse ele. Só me pegou pela mão quando mamãe já não podia nos ver nem da cozinha, nem do quarto do casal, no andar de cima. Na ocasião, não considerei aquilo um indício de covardia, e sim de espírito aventureiro: tínhamos um segredo. Estávamos fazendo algo que mamãe não podia saber. Nem mesmo ela. 
 
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