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A Cada 15
TROVA, de Carlos Eduardo de Magalhães - trecho, página 162 a 167
TROVA, de Carlos Eduardo de Magalhães - trecho, página 162 a 167
Colocou as notas na carteira e a recolocou na bolsa. Despediu-se do aluno, que retomaria as batalhas pausadas no videogame encostando num canto a flauta até a semana seguinte, quando ela então voltaria para interrompê-lo outra vez. Cada um tem suas próprias batalhas, pensou, fechando atrás de si o portão do prédio. O que ficaria do dinheiro gasto com ela era um mistério. Podia ficar algo ali no subconsciente, como a mãe do gorducho em suas psicologias de revista lhe disse quando a contratou, já adiantando que ele não se interessava muito por música. Não caberia a ela julgar se era um desperdício de dinheiro, de talento — o moleque parecia ter ouvido e facilidade —, de tempo. No dia em que não precisasse mais, não apareceria e nem ligaria para aquela mãe dondoca para dar satisfação. Pelo menos serviam uma limonada boa e uns salgadinhos crocrantes daquela padaria da praça Vilaboim. No banheiro tinha um desses sabonetes líquidos que custam uma fortuna e que deixavam seu rosto perfumado até a noite, e Cris cheirou as mãos descendo a rua Alagoas em direção à avenida Pacaembu sem perceber que o céu se fechava sobre ela.
 Estava encurralada no canteiro central pelos carros nos dois sentidos na Pacaembu quando o céu veio de uma vez só, vento e chuva e trovões e raios, como se a tempestade fosse um felino a caçar dando o bote quando a presa mais frágil estivesse vulnerável. Cris protegeu-se embaixo de uma árvore, o estojo da flauta e a bolsa coladas ao peito. Quando o sinal fechou, a água junto ao meio-fio do outro lado era tão forte que ela hesitou em atravessar a avenida, buscando outra vez refúgio sob a árvore que já não a protegia da tempestade que parecia vir de todos os lados, refúgio na esperança de que fosse água passageira, que sua paralisia fosse passageira, e que no próximo sinal fechado, dali a 33 segundos, entraria no ônibus que podia divisar atrás dos carros enfileirados. Estaria 33 segundos mais molhada, seu vestido cinza 33 segundos mais escuro, sua vida 33 segundos atrasada. 33 segundos era começo de qualquer música, que depois veria seu meio e seu fim, tudo parido daqueles 33 segundos iniciais em que ela entendia cada olhar da plateia, olhares de distração, olhos que enxergavam só sua música, olhos que viam apenas a ela, examinando cada palmo do seu corpo, cada mínimo traço do seu rosto, cada cacho de seu cabelo preto preso em rabo de cavalo, olhos que por vezes se ausentavam na melodia levando a pessoa longe, no tempo, no espaço, a bordo de uma nave qualquer sentimental em que a piloto era ela. Em cada um daqueles 33 segundos intermináveis a pele se ouriçava de frio e de medo, e não haveria música que desse jeito, pilotasse quem pilotasse. Segurou-se num galho pouco acima de sua cabeça e aproximou-se do caule da árvore, encolhendo-se a cada trovão. O sinal por fim ficou vermelho outra vez, e quando Cris pisou na rua para atravessar não reparou que o palmo de água que corria junto ao meio-fio do canteiro não era um palmo de água, era um braço. Desequilibrou-se, mas não caiu. Não foi o céu que veio abaixo. Foi tudo. Um furacão que dragava todas as formas conhecidas e toda vida possível e cujo epicentro era uma mulher pequena, um ponto insignificante na imensa história do homem e na imensa cidade de São Paulo, era ela, Cris. A sandália e a bolsa foram ao chão para nunca mais, carregadas pelo fluxo giratório que se convertia em ódio contra ela, e nenhum desgraçado saiu do carro para ajudá-la. Ouviu uns gritos fora da redoma de seu desespero e levantou a cabeça. Na outra margem da rua, os 33 segundos fizeram sumir o meio-fio em um Amazonas que já alcançava a metade da roda dos carros, para depois certamente alcançarem os topos dos prédios e a todos afogar, enquanto um vulto enorme parecia enfrentá-lo alheio às coisas como as coisas eram. Os gritos estavam perto e só quando o homem segurou seu braço é que pareceu tê-lo visto.
Calma moça, vem comigo.

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