Seu carrinho de compras está vazio!
A Cada 15
O TEMPO EM ESTADO SÓLIDO - Asa Norte, caminho do céu, PRIMEIRO CONTO
O TEMPO EM ESTADO SÓLIDO - Asa Norte, caminho do céu, PRIMEIRO CONTO
A velocidade parece ser a única solução para o esquecimento. Impressionante o que o vento faz, quando se anda de moto — a rispidez dos ares, o estremecimento do asfalto, e o corpo naquela postura de pássaro ruflando as roupas. O vento pode tudo, inclusive criar o esquecimento.
Nos relâmpagos que os pneus desenham, cortando o trânsito, ele finalmente chega à ponte. É um dos locais mais altos da cidade, e de onde se pode ver a pista de decolagem do aeroporto. Melhor: por ali passam os aviões que se preparam para a aterrissagem, e bem antes que eles surjam na curva do leste, é possível captar os sons. Um rádio adaptado revela a conversa dos pilotos, o timbre abafado no diálogo com a torre de controle:
— Tango Papa 163 a 5 mil pés; informe o procedimento.
— Tango Papa 163, aproximação direta para pouso. Continue a descida e reporte a 3 mil pés. Prioridade 1.
Um A 310 entra no circuito de tráfego aéreo. Dessa vez, o dia é de sorte. Ontem, na espera de quase uma hora, apenas três Bandeirantes cruzaram o céu. Mas agora virá um avião bonito, que fará estremecer a terra. No acostamento, quatro carros e outras três motos descansam. Os motoristas reuniram-se em grupos em torno dos rádios. Agitam-se, na expectativa; alguns gesticulam, lábios se articulando em palavras que não se ouvem daqui. O movimento dos veículos na pista é intenso; poucas bicicletas se arriscam, como gafanhotos, na teia dos faróis acesos. A noite apenas principia, nesta margem de estrada. Depois, virão as prostitutas e os vadios bêbados.
 
 
BAIXAR PDF

 

Grua Livros © 2017