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EU NÃO CONHECIA SEU PEDRO - trecho - LUIZ ANDRIOLI
EU NÃO CONHECIA SEU PEDRO - trecho - LUIZ ANDRIOLI

Mãos descascadas, com pelos falhados e cores diferentes, marcadas pelo vitiligo. No rosto também apareciam algumas falhas, disfarçadas pelo bigode espesso. Quando entrei na empresa, ele já era dos funcionários mais antigos. Trabalhava terceirizado e sobreviveu no seu posto de porteiro da madrugada a várias trocas de prestadoras do serviço de segurança. A confiança que os donos da emissora de tv lhe depositavam fazia com que fosse sempre readmitido a cada novo contrato. E assim iam uns bons vinte anos, pelo menos a metade deles preenchidos também com a nossa relação de poucos diálogos. Procuro palavras para dar a dimensão correta deste homem na minha memória. O que junto aqui é fruto de uma construção de pequenos detalhes recolhidos em muitos encontros de rotina. Voz calma, rouca e serena, nas poucas vezes que ouvi. Fiz de alguns retalhos o cartão de apresentação do seu Pedro, ao menos na minha cabeça. E para mim bastaria, seria o suficiente, não fosse o incômodo, tal qual o alarme de um despertador escondido pela casa.

Sentado em frente ao computador, registrando a saída dos funcionários (poucos) do turno da noite. Era assim que eu o via quando por acasos da reportagem acabava fazendo hora extra. Na pressa de quem já havia trabalhado algumas cinco horas além do previsto, o meu tchau não demorava mais do que o tempo de passar o cartão no ponto eletrônico. O sorriso franco dele era sempre do mesmo tamanho.

Muito trabalho hoje?

Chuva deve ser ruim pra repórter, né? Molha o terno…

Vai com cuidado!

Muita notícia nesta cidade?

Tava de férias, Luiz?

Se eu fosse capaz de um comentário simples, o começo de uma conversa que preenche o tempo, gastaria ali alguns minutos, tal como se faz com porteiros em geral. Mas não, na verdade, eu nunca conheci o seu Pedro. Passar o cartão na máquina ao lado de sua guarita às vezes parecia ser uma tarefa interminável. Responder com um comentário possivelmente gentil às perguntas convidativas do porteiro sempre me deixou desconfortável. Eu, em poucos minutos, estaria em casa, com o dia ganho. E aquele homem, que passara grande parte de sua vida em um cubículo redondo de acrílico dando boa noite para o pessoal do último turno, ainda teria várias horas na sua solidão.

Talvez uma boa conversa levasse sua imaginação para um lugar melhor. Talvez dividir com ele um detalhe pitoresco de alguma reportagem o transformasse na atração do dia no bairro onde morava. Outro dia me contaram que ele torcia para o Atlético Paranaense. Na mesma semana fiz uma reportagem especial com um novo jogador do time. Era um atleta que venceu uma doença séria na coronária e voltou a jogar até melhor do que antes, contrariando todas as previsões médicas. Pensei em pegar um autógrafo, assinado no guardanapo do restaurante, do atleta que foi batizado de "Coração de Leão". Daria o papel para o seu Pedro no dia seguinte, pensei. Mas o jogador acabou atrasando em uma hora a entrevista, fiquei puto e não pedi. Alguns dias depois, cheguei até a desconfiar que o meu pensamento foi ouvido pelo porteiro.


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